quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Lugar

Tudo começou com uma garota chorando no corredor. Era quinta-feira, dia nublado e ligeiramente abafado, e garotas chorando no corredor na verdade não são uma cena tão incomum.

Percebi a presença de uma amiga próxima a garota, dando tapinhas em seu ombro com um olhar ligeiramente perdido. A garota que chorava afastou-se, e nada me impediu de questionar o que havia ocorrido.

- Júlia – e ela virou-se ainda com seu ar confuso – o que houve?

Ela pareceu despertar.

- Um garoto da minha sala morreu.

Olhei para a classe de aula, com tantas pessoas gritando e rindo alto como faziam todos os dias. Ela compreendeu.

- Ele era meio tímido, e tem tanta gente idiota nessa droga de sala que não está dando a mínima...

Não reconheci o nome. Ela mostrou-me a foto, um garoto branco de cabelos escuros.

Lembrei-me dele, via-o às vezes no corredor, e também no intervalo, sempre quieto e tranquilo. Já havia falado com ele algumas poucas vezes, trocando aquelas palavras vazias de conversas com amigos de amigos. Algo apertou-se no meu peito.

- Leucemia, ele já estava a três semanas no hospital.

Dei um sorriso triste. Ela olhava nos meus olhos.

- Está tudo bem?

Eu já lacrimejava.

- Não, isso é péssimo, não é?

Ela acenou com a cabeça. Disse que sentia muito, permanecemos um pouco no nosso silêncio magoado e precisei dirigir-me a minha sala: os inspetores já estavam ficando impacientes com a conversa no corredor. O intervalo havia acabado.

Um grande burburinho quando cheguei. A maioria comentava a morte do garoto, a mãe dele havia ligado a poucos minutos para informar do ocorrido. Era a fofoca do momento. Ouvi chocada um garoto reclamar que podia ter morrido alguém na nossa sala, e quem sabe pudéssemos ser dispensados mais cedo. Outra garota ria e dizia que ninguém conhecia ele mesmo, não ia fazer falta. O aperto crescia. De repente a voz:

- Marina, você está bem?

Foram as palavras necessárias para eu chorar as lágrimas que nem sabia que estavam lá. Já reuniam-se alguns olhares curiosos na minha direção.

- O garoto – eu sussurrei – ele...

E chorava mais. Agora já chegavam as perguntas: “você o conhecia? Era amiga dele? O que ele fazia? Como estava? Do que ele gostava?”. Todos sedentos para incrementarem sua versão da história, para terem algo mais a dizer já que esse era o assunto.

Minha raiva misturava-se ao ceticismo. Quanta frieza, quantas intenções inúteis – aquilo chegava a ser cruel.

- Não, não falava tanto com ele.

Afastei-me, e tomava as lágrimas como companhia. Não entendia o motivo daquela minha tristeza, não conseguia suportar a frieza a minha volta.

Quero dizer, ele era um garoto, e tinha a minha idade. Noutro dia estava passando pelo corredor e conversando com os amigos, e agora ele simplesmente não existia mais. Eu nunca mais veria seu rosto misturar-se à massa de alunos. Nunca teria a oportunidade de conhecê-lo, não descobriria nada sobre ele. Uma vida arrancada do espaço e do tempo sem piedade.

Jovem. Cheio de vida. Talvez estivesse montando planos e alimentando grandes sonhos, ou só estivesse preocupado com o que faria no fim de semana. Uma pessoa com esperanças e preocupações, expectativas e sentimentos. Seu sorriso, seus olhares, o som de sua voz, tudo extinto. Aquilo era tão sombrio.

Ouvi uma garota sussurrar perto de mim que eu mal o conhecia, e seu tom dava a entender que eu estava me aproveitando da situação de alguma maneira. Os outros continuavam se comportando exatamente como sempre.

Eu não esperava um luto geral, mas fiquei surpresa com o desprezo que tantos demonstravam. Se o pesar não era necessário, ao menos o respeito.

Ele tinha a nossa idade. Poderia ter sido eu, poderia ter sido qualquer outro.

O quanto ele tinha em comum conosco? Quantos assuntos, prioridades e problemas teríamos em comum? Quantos defeitos, quantos medos? O que ele havia deixado para trás sem chance de reaver? O que o esperava? E por que as pessoas faziam tanta questão de tratar sua partida como algo sem importância, forçadamente sem importância, como se precisassem impor sua apatia?

O garoto de cabelos levemente loiros e olhos amáveis – o meu garoto – esperava-me na saída.

- Você está chateada pelo garoto, não está?

Sim, meus olhos disseram. Não queria chorar na frente dele.

Ele segurou minha mão.

- Não posso mentir dizendo que estou abalado, não costumo ficar quando vejo a morte de alguém que não tinha uma ligação comigo... Mas sabe o que eu acho realmente lindo? O nascimento de uma criança. A perda da vida desse menino é lastimável, mas acho mais lastimável ver você assim... Porque isso sim me atinge, essa sua tristeza. Há algo que eu possa fazer?

Sorri.

- Já está fazendo.

Depois minha mãe foi buscar-me, e logo já perguntava o que acontecera.

Expliquei, e arrematei:

- Todo mundo trata isso com tanta naturalidade. Sei que é bobagem ficar mal assim por alguém que não era tão próximo... Só não consigo evitar.

Ela me encarou muito séria.

- A morte de alguém tão jovem não é algo banal, e você não está errada lamentando isso. Não é você quem está errada.

Não acho o pranto belo, não posso repreender aqueles que não são atingidos. Mas também não posso admirar os que menosprezam sem motivo o que desconhecem.

Espero do fundo do meu coração que a família e os amigos desse garoto tenham força, porque ele só pode estar num lugar melhor agora.

Cada um que parte deixa uma marca por onde passou, e só os mais sinceros podem ao menos enxergá-la.

A vida ainda continua, e essa é uma verdade dolorosa.

Um sorriso a menos, algumas lágrimas a mais, e continua-se em frente. O importante não é desistir ou revoltar-se. Difícil é reconhecer a comoção, abraçar o destino sinuoso, enxergar as implicações das surpresas desagradáveis. Seguir em frente, sempre em frente, por mais que doa... E dói mesmo, simples assim.

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