terça-feira, 11 de outubro de 2011

Pesadelo



Lá está Camila, arrancando o canto das unhas com os dentes.

A noite avança, e mesmo com os olhos vermelhos de cansaço ela suspira e balança a cabeça repetidas vezes: não quer se entregar. Lágrimas - originadas de algum canto indefinido de sua alma - atravessam seu rosto.

Ouve um ruído na escuridão, e ignora-o. Os ruídos do lado de fora são inofensivos, ela bem sabe. O verdadeiro problema são os de dentro, os sons que não somem nem quando grita com todas as suas forças.

O perigo está à espreita, só esperando que ela cerre os olhos e perca a luta.

Já sente-se perdida, não sabe direito quem é. Seria covarde por não querer enfrentar seus próprios demônios ou corajosa por resistir com tanta decisão?

Oscila. Tenta morder os lábios como se a dor pudesse despertá-la, mas em vão. O torpor se apodera dela. Agora só resta torcer para que a exaustão bloqueie qualquer atividade de sua mente perturbada.

Camila admite para si que, no fundo, não há saída. Por mais que ela tente fugir eles estão dentro dela, esperando para aterroriza-la, persegui-la e fazê-la em pedaços.

Não há mais nada a fazer.

Durma bem, doce criança, pois não há salvação para os fantasmas que habitam dentro de nós. O alívio só vem com o despertar.




Lá está Camile, chegando em casa e acendendo a luz do quarto com uma gargalhada histérica.

Abraça o próprio corpo trêmulo enquanto tira os tênis vermelhos, sacudindo freneticamente os pés.

Lá embaixo, depois da escada, há um monstro que adoraria preencher seu corpo com mais hematomas. Por mera coincidência, o mesmo monstro que acabara de deixar seu olho direito terrivelmente inchado.

Ele está furioso. Mesmo que ela não tenha nada a ver com isso, tranca a porta com a chave que conseguiu naquela tarde.

Ouve seus passos altos ecoarem e põe roupas mais confortáveis. Não evita um sobressalto quando a fera decide esmurrar a porta, enquanto a garota decide que sua pesada cômoda ficaria muito mais adorável embaixo da maçaneta, fazendo com que ela suporte os golpes.

Ainda ri por baixo dos gritos coléricos, chorando lágrimas grandes e desarmoniosas.

Sempre adorara dormir. Mais do que a oportunidade de descansar, a de fugir. Cortar horas inteiras, tardes e noites atravessadas num piscar de olhos. Sempre imaginava secretamente que esse fosse o caminho mais sagrado para a morte, o de morrer gradativamente ao fechar os olhos dia após dia. Fugir da verdadeira escuridão e estar descansada para suportar a dor repetidamente.

Camile sorri ao se arremessar contra o colchão que range. Abraça o urso de pelúcia velho com força. Fecha os olhos e ouve o demônio blasfemar atrocidades do outro lado da casa. Aquilo soa como música, prévia do que ela abandona para cair na inconsciência.

Camile vai dormir seu sono tranquilo, porque sabe que estar dentro de si traz segurança. Não há mais conforto em sua rotina cansativa e triste.

Camile vai dormir sem medo. Sabe que os verdadeiros monstros, os perigosos, estão todos ali: do lado de fora. Não há escapatória para os demônios que brincam de se esconder em esquinas mal iluminadas.

Camile se entrega ao doce sono, ao descanso imediato.

Porque quando os piores pesadelos passam a deixar marcas verdadeiras na pele, a solução está em fechar os olhos.

Durma bem, gentil criança, pois quando o terror atravessa a realidade não há mais nada a ser feito. Sonhos são descartados: não têm o mesmo valor. O alívio é raro, difícil.

Já ao desespero, só resta aguardar sua entrada triunfal: o despertar.

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