
São nove e meia da noite, e a festa está começando – um aniversário de 15 anos. A idade dourada, o acontecimento da vida de uma garota.
Um salão enfeitado, mesas forradas e talheres cintilantes. Pela porta acabam de passar quatro amigos, dois são irmãos. Todos arrumados e inquietos, parabenizam a aniversariante e procuram uma mesa.
Entre os quatro convidados que se sentam há uma garota alta de cabelos enrolados, distraída e não muito chamativa. O que poderia chamar a atenção não é algo visível – no caso, sua mente agitada, sempre cheia de ideias e histórias e análises e todo tipo de informação.
E agora tiremos essa cena do cenário comum.
Que tal se nesse momento um convidado, que na verdade nem queria tanto estar nessa festa, chegasse e se juntasse aos primeiros?
Talvez ele conversasse com todos e se apresentasse para a garota alta, que se divertiria com as conversas sobre a bolsa de valores, pão e o clima do dia seguinte, muitos assuntos promissores, isso mesmo.
E sonhando mais, talvez eles começassem a se falar – estudavam no mesmo colégio, essa possibilidade existia.
Talvez trocassem celulares e endereços eletrônicos, e começassem a se conhecer melhor. Gostavam de ler, odiavam inglês, valorizavam os estudos: tinham elementos em comum. Ela acharia o estilo vagamente anti-social dele engraçado, e admiraria sua inteligência e determinação. Riria de suas piadas muitas vezes insanas. Quem sabe poderiam começar a sair de vez em quando.
Passeariam por todo tipo de livraria e loja de música. Ficariam chocados quando fãs de Restart histéricas comemorassem o novo livro da “banda” (isso é música?). Quase seriam atropelados atravessando uma rua muito movimentada. Perderiam óculos numa seção de brinquedos. Olhariam o próprio reflexo no teto espelhado do shopping e acabariam fazendo curiosos olharem pra cima também. Assustariam mulheres na Martins Fontes de maneiras constrangedoras. Fugiriam de pessoas com questionários (e mentiriam para elas). Discutiriam desenhos animados dos anos 80 e 90. Comeriam barras de chocolate Arcor sozinhos. Fariam caretas para os espelhos da escada rolante. Ririam quando o molho do sanduíche ficasse apimentado demais. Contariam muitas histórias (politicamente incorretas) sobre um amigo em comum. Ririam de fotos antigas e comprometedoras. Derrubariam chocolate drageado no chão e teriam um ataque. Discutiriam sobre música clássica, popular e possíveis roubos de palheta. Formariam planos para matar professoras de ballet. Tocariam violão juntos – ele melhor que ela, dedilharia clássicos. Transfeririam Beethoven para um piano de brinquedo. Pediriam ajuda para faxineiros numa tentativa desesperada de recuperar um celular.
Talvez também começassem a filosofar de madrugada, a trocar muitas, muitas mensagens. E emprestar livros. Talvez passassem a compartilhar problemas e histórias, a se conhecer mais e mais. Talvez a amizade se tornasse verdadeira. E chegasse a um ano.
Mas nesse caso seriam suposições demais, certo?
Quer dizer, esse não é o tipo de coisa que aconteça na vida real, só em filmes. Histórias não começam assim.
Só que por algum motivo, um garoto com olhos apertados entra na festa procurando por conhecidos. Também arrumado, um pouco preocupado com a prova do dia seguinte.
Cumprimenta a todos, inclusive a garota alta, como se não importasse.
Talvez, e só talvez, importe. Porque às vezes o destino brinca de imitar a ficção. E às vezes as relações mais divertidas e sinceras começam quando menos se espera.
Um evento, perguntas bobas, caminhos incertos, todos apontando de maneira misteriosa para uma mesma conclusão. Para um garoto determinado e inteligente, para uma garota maluca e desajeitada com as palavras. Uma amizade improvável e significativa, discreta e atrapalhada, e ao seu próprio modo, bela. Imperfeita. Porque como disse Fernando Pessoa, “[...] Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito. [...]”.
A garota de olhos sonhadores só pode agradecer por essa imperfeição. Obrigada por tudo, senhor W. Mesmo.














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