Pois é. Acho que depois de tantas caretas e conclusões precipitadas posso ter conseguido algo.
Sabe, foram muitas noites sem dormir direito e muitas voltas de bicicleta, todo aquele drama absolutamente necessário, para que eu conseguisse vislumbrar o vaga-lume de ideia.
O problema é que perdi muito tempo vagando pelos lugares errados. Procurando alegrias infinitas e soluções definitivas num mundo instável e adoravelmente errático.
Lá estava eu, numa noite qualquer, conversando com o garoto de sempre, aquele mesmo que atrai as palavras mais mirabolantes sem qualquer motivo aparente. Resmungava como sempre, e eu tentava remendar seus pedaços confusos e impacientes.
Nesse momento, com um estalido, me dei conta: ele estava absolutamente errado.
Quer dizer, dá pra procurar esse contentamento em amigos, parentes e outras projeções de perfeição. Mas no fim, com toda a sinceridade, a tal felicidade está dentro de nós. Sempre esteve.
Ah, meu caro, minhas bochechas às vezes doem porque ultimamente tenho feito um esforço danado para sorrir e não trilhar o mau humor imediato. Ou pelo menos engolir todo o veneno possível antes de começar a piorar meus problemas.
Estou começando a entender de verdade que não posso mudar tudo. Gostaria de arrancar mais sorrisos e encerrar mais conflitos antigos, mas isso é algo fora de alcance. Quem me dera arranjar mudanças profundas e rendições mágicas. Parar as brigas estúpidas e dizer o que (talvez, e só talvez) fizesse diferença.
Agora quando os gritos começam a bloquear até o som da minha respiração ponho os fones de ouvido, e ouço música o mais alto possível. Sorrio com as lembranças, assovio as partes que não sei e canto bem baixinho o que já decorei. Retiro-me da guerra que não me pertence.
Quando me sinto muito sozinha pego a bicicleta e saio, só para sentir o vento do inverno bagunçar ainda mais meu cabelo. E para ver as borboletas – borboletas são tão dóceis e agradáveis. Como um pequeno presente nessa paisagem urbana e apressada.
É muito difícil ver alguns pontos desabarem a minha volta. Observar pessoas se arruinando, sempre presas aos mesmos vícios.
Mas é assim mesmo, não é? Todos. Sempre acham que são especiais por algum motivo. Bonitos ao seu modo, mais espertos do que se espera, corretos...
Ilusões. No final todos humanos, errando e agarrando o egoísmo quando conveniente. A maldade pura e declarada, Senhor Smith, permanece mesmo nos filmes e nas novelas que assisto de vez em quando.
Agora eu conto um segredo: não está sendo nada fácil. Parece que quanto mais tempo passa mais nítidos ficam os problemas, e mais me envolvo no emaranhado de desejos, sonhos e decepções. É muito feio, mas em alguns dias sinto certa arrogância. Noutros tenho vontade de quebrar o espelho pra não encarar mais meu reflexo, tão pobre, coitado.
Ando comendo mais do que deveria, já falaram com toda a (in)discrição possível que estou engordando. E também estou mais quieta, e a palavra pode ser difícil. Hm, outro dia me chamaram de fraca. Não gostei muito do adjetivo, mas talvez seja isso. A desistência pacífica.
Pode ser raciocínio de gente enganada, mas nesse caso, se estou mesmo enganada não posso, sabe como é, ter conhecimento disso. Só que a verdade é que me sinto mais completa. Percebi que é muito mais satisfatório ganhar um “obrigado” de alguém mergulhado em amargura do que tentar (em vão) resolver seus problemas num exercício mental.
Não sou nem um pouco perfeita, isso é fácil de enxergar. Alguns não parecem estar gostando muito dessa minha relativa tranquilidade.
Mas eu consegui rir sozinha, tocando violão e comendo chocolate. Eu consegui dançar sem música, Smith. E gargalhei quando percebi que já estava saindo de casa sem as chaves.
Poderia ser mais divertido discutir isso se você existisse, cá entre nós. Meu pai provavelmente vai achar essa carta na gaveta e rir de mim enquanto fuma seu cigarro com cheiro de hortelã, dizendo que estou enlouquecendo.
Só que assim é melhor. Não preciso ouvi-lo, só dispersar esse cansaço da rotina.
Pode ser questão de comodidade e loucura, Senhor Smith. Não estou me importando muito.
Declarar-me feliz talvez seja um pouquinho de presunção, e um pouquinho de desprezo também por coisas que realmente preocupam. Hm, ok, pode chamar de coisonas se preferir assim.
Mas chega de complicar o complicado, certo? Certo.
Felicidade deve ser algo próximo disso, de apreciar o possível e conviver com o impossível. E lá venho eu de novo com minha filosofia. Muito delicado da sua parte não existir e não contestar minhas linhas sinuosas. Obrigada por isso.
Com amor,
Mika.
P.s.: não sei por que, mas acho que essa carta ficou com gosto de açúcar...
P.s.²: talvez seja culpa do chá que eu estava bebendo. Melhor deixar pra lá.
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2 leituras de texto :):
Bacana o conto, se é que é conto mesmo ;-)
Mas toda essa obsessão pela felicidade do mundo moderno é algo manufaturado pelo mercado e ela é tão impossível quanto inexistente.
A sensação de felicidade que sentimos, geralmente vem de dentro, muito mais do que de fora.
Beijo.
Marih sua liinda,
qto tempo, né? rs
Saudades de você,
Sobre sua carta, a felicidade não é uma estação na qual chegaremos mais sim uma forma de viajar. Você não precisa buscar outros horizontes para ser feliz, você precisa achar a felicidade é dentro de si mesma.
http://confissoesdanessah.blogspot.com
http://asverdesmeninas.blogspot.com
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