
- Não.
A palavra simplesmente saltara da garganta. Sem denúncias, foi simplesmente expelida. Fácil como respirar. Difícil seria encarar os olhos que agora o perfuravam.
- O que você disse?
Encolheu-se. Perto do pai, alto e imponente, parecia ainda menor.
- Eu disse que... não, não concordo.
O homem parecia crescer dentro de sua indignação.
- Como assim, não concorda?
A frase foi pronunciada entre dentes rangendo.
De repente ergueu a cabeça. Sua mente martelava, as palavras ainda engasgadas. Não sabia se teria controle quando começasse.
- Pai, eu não sou obrigado a concordar com tudo que você diz. Acho que você está optando pelo caminho mais fácil. Uma conversa é praticamente necessária, você não pode simplesmente usar ameaças e repreender escolhas.
Sempre fora nervoso, impulsivo. Ainda mais quando se tratava de algo tão pessoal. Chutou a porta enquanto falava, elevando o tom de voz.
- Agora vai querer dizer como eu devo lidar com minha própria filha? Quer comandar essa família melhor do que eu? Acha que pode fazer melhor, é isso?
O rapaz estremeceu com a explosão. Era por isso que odiava contestar o pai.
Mas a situação beirava o insustentável. Não sentia-se mais como alguém pacífico, mas como um covarde. Não conseguiria continuar assistindo a sucessão infindável de discussões e brigas que não chegavam a lugar nenhum.
Mudaria algo? Não sabia. Mas no meio de tantas pessoas que não hesitavam em gritar suas convicções, talvez o risco valesse a pena.
- Vocês deveriam tentar chegar a um acordo. Se ninguém ceder, não vamos a lugar nenhum! Essa tensão toda é melhor do que uma mudança?
O homem enrubesceu. Nunca esperaria isso do filho, ao menos não daquele.
Sempre fora muito mais calmo do que as pessoas que o rodeavam. Inteligente, calado, estava sempre ao seu lado. Diferente dos dois irmãos mais velhos, era muito mais sensato e tranquilo.
Então por que bem agora uma traição?
- Não sabe o que está dizendo. Eu sei como devemos agir, e você sabe o quanto luto para manter tudo em ordem! Eles não colaboram, e eu já fiz tudo que podia! Se eu não controlá-los, todos perdem o rumo. Eu preciso mostrar o caminho certo para aqueles teimosos!
A risada que o garoto deu foi cínica, arrancada do lado mais negro de sua essência. Certos pontos precisavam ser explicados.
- Mostrar o caminho? Pai, tenho que deixar algo bem claro. Não é só porque ouço o que você tem a dizer que sempre concordo. Aliás discordo muitas vezes, mas respeito suas opiniões. Só que não posso continuar mudo quando os problemas de vocês estão me afetando! Chega de provocações, parem de correr em círculos e tentem arranjar uma solução, de uma vez por todas! Reclamam tanto, mas no fim vocês são idênticos!
Foi uma reação instantânea. Quando foi racionalizada já era tarde.
O som do soco ecoou pelo cômodo, e foi como se o mundo todo houvesse parado só para ouvir.
O garoto estava no chão, perplexo, enquanto observava o pai andar de um lado para o outro gritando descontroladamente.
- Eles estão errados, a culpa é só deles! Deles! Não posso fazer nada se ninguém entende como a vida funciona, e não é você que vai começar a me contrariar agora! Você não entende nada, nada! Não se intrometa, não transforme-se em mais um problema!
Passaram-se alguns segundos. O garoto observava o sangue gotejar no chão e a visão nublar.
Sempre tão paciente, tão controlado. Essa era sua recompensa – a falta de respeito.
Sempre aguentou a todos cuspindo veneno em seus ouvidos. Consolou, defendeu, apaziguou. E agora estava desamparado no meio de uma batalha que não era sua.
Cambaleando, levantou-se. O pai vinha em sua direção mais calmo, com um pedido de desculpas sussurrado. O rapaz estendeu a mão para que ele parasse onde estava.
- É disso que estou falando. Não posso deixar de tentar interferir quando chegamos a esse ponto. Não vou suportar mais algo assim. É minha hora de ir.
Rindo com escárnio, a culpa foi rapidamente esquecida.
- Você tem dezesseis anos, meu filho. Não sei o que está esperando.
Quando encarou seus olhos, o homem titubeou.
A expressão que enxergou era compenetrada, mas principalmente decidida. Cansaço, desgaste, tudo moldado num sofrimento outrora discreto.
Seus olhos azuis agora pareciam dois blocos de gelo, e as lágrimas que dali escorriam eram solitárias, sem soluços ou impulsividade.
O sangue manchando aquela maturidade precoce assustaram e trouxeram alguns anos à consciência de um homem que, por um momento, achou que poderia ter errado. Muito.
- Também não sei o que espero. Só não posso observar tudo desmoronar e esperar ser soterrado junto com vocês. É tanto egoísmo que ninguém consegue enxergar.
Antes que o rapaz atravessasse a porta, o pai tentou demonstrar confiança.
- Você é só uma criança. Vai aprender pela dor.
O rapaz sorriu.
- Não, pai. Talvez eu seja a peça fora do lugar, mas ainda prefiro a ignorância. Talvez eu devesse continuar calado, engolindo o desconforto e fingindo que tudo pode melhorar num passe de mágica. Talvez nada dê certo. Mas quer saber? Já não sou mais tão criança a ponto de saber tudo.
O desprendimento é complicado. Não é como um abandono, só como um descuido.
Enquanto chorava sua amargura, o pai lamentava a injustiça preponderante. O destino cruel, o passado significativo e cinza.
Andando pela calçada e sentindo o vento soprar em seus ouvidos, o garoto chegava a triste conclusão de que nem todas as possíveis melhorias estão ao alcance das mãos.
A boca tinha gosto de sangue, mas não importava.
Mirando o céu, supôs as cores do futuro. E, sorrindo, avançou pela tarde gelada.














1 leituras de texto :):
Cara, li esse texto umas 3 vezes.
sério.
era p/ eu estar estudando p/ o simulado, mas eu ñ to nem ai, AMEEEEEI o texto, mariiiih !
HIPER foda!
asoiuaHSIUAh
então, eu prometo que vou fazer um comentário decente p/ esse texto aqui depois, ok? pq agora eu realmente preciso estudar p/ negocio, e eu não podia simplesmente não comentar alguma coisa agora...
biiiiih ;*
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