quinta-feira, 5 de maio de 2011

Dizer - 3/4


Foi como um choque.

Ana de repente deu uma pequena risada e abraçou Helena. Começou a desfazer sua trança, deixando o cabelo castanho escuro contornar o rosto simétrico.

- Sente-se menos sufocada?

Helena não entendia o brilho nos olhos da garota de voz firme após sua última afirmação. Soltar o cabelo talvez fosse uma boa ideia – era bom sentir os fios acariciando seu rosto – mas a linha de raciocínio de Ana era atordoante. Sim, sentia-se menos sufocada – fisicamente – e por isso decidiu balançar a cabeça para cima e para baixo.

Ana estava perto dela, então segurou suas mãos.

- Matt te ama. Eu sei disso, enxergo pelos seus olhos, pelos seus gestos. Quando conversamos superficialmente, ele sempre deixa escapar um sorriso tímido ao ouvir o seu nome. Quando ele segura suas mãos, quando sente o perfume do seu cabelo, quando bate o pé no chão ritmadamente antes de você aparecer. Ele já teve outras garotas, mas nunca pareceu se importar. Você é a exceção, estou certa disso.

A garota de cabelos agora levados ao sabor do vento sentiu como se um peso enorme houvesse sido tirado de suas costas – pelo menos chegava à conclusão de que era retribuída de certa maneira.

Mas agora também via que não deveria ter entrado no quarto dele naquele momento. Agiu impulsivamente, como sempre. Invadiu a privacidade da pessoa mais reservada que jamais conhecera.

Sentia-se cada vez mais culpada.

- Eu sou uma idiota, não sou?


Agora Ana sentia-se melhor. Finalmente conseguira explicar que nada era tão grave quanto uma mente apaixonada era capaz de raciocinar.

- Você não tinha como adivinhar a história do violão. E Matt não deveria ter gritado com você. Acho melhor você simplesmente deixar a poeira baixar um pouco e...

Parou e deu um sorriso sincero. Olhava através de Helena.

- Sim?

- Acho que está na minha hora de sair de cena. E, por favor – seus olhos escuros eram suplicantes – não haja tão impulsivamente. Tudo é uma questão de ponto de vista, e o seu pode ser menos radical.

Antes de qualquer resposta de Helena, Ana já corria graciosamente para longe dali. Ela era engraçada correndo, saltitava um pouco.

E também antes de se perguntar sobre a fuga inesperada, olhou para trás. E enxergou cachos – dessa vez negros – vindo em sua direção.


E com um violão nas costas.

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