
Ana tomou um susto quando viu a pequena Helena correndo desesperada porta afora.
Ah não, foi seu único pensamento.
Poderia subir para falar com o irmão, mas sabia que ele não falaria.
Matt nunca fora um garoto de ações e palavras desaforadas. Pensativo como era, provavelmente estaria remoendo o que aconteceu e imaginando uma solução.
Sozinho, mas com a companhia de seu violão.
Assim, Ana decidiu que falaria com Helena, nem que isso lhe custasse uma briga com o irmão mais tarde.
Matt bagunçava seus cachos negros.
Como fora estúpido!
E não tinha a menor ideia de como corrigir sua explosão incontida.
Logo ele, tão controlado e calculista, machucando a única pessoa que valia a pena.
Não tinha coragem nenhuma de agir naquele momento. Precisava respirar, e sabia o melhor modo de fazer isso: conversar. Com seu violão.
Helena sentou nos degraus de sua casa assim que chegou. Na verdade, a palavra mais apropriada seria desabou. Como Matt pôde ser tão estúpido?
Ele não a amava. Essa era a resposta, e exatamente o que ela mais temia – não ter correspondido um sentimento tão grande, tão lindo.
Talvez ele já tivesse cansado dela faz tempo, e cega não tivesse percebido.
Quando pensava justamente numa maneira de não se afogar em suas próprias lágrimas, reconheceu alguns cachos iluminados pela luz suave da tarde.
Cachos claros.
Ana já achava-se grande demais – além de ser alta, levemente acima do peso.
Quando viu Helena encolhida encarando-a como se fosse um monstro, sentiu-se ainda mais desproporcional.
Ela ficava tão menor daquele jeito.
Sentou-se ao lado da delicada figura de azul e esperou.
Sabia que Helena adorava falar, e como não a expulsara provavelmente começaria a desabafar logo.
- Matt gritou comigo – ela praticamente sussurrou. - Eu nunca achei que isso aconteceria.
A irmã mais velha tomou um susto sincero. O irmão era totalmente controlado. O que o levaria a gritar?
- Mas – começou com cautela – o que houve?
- Eu só pedi pra ele tocar uma música pra mim. E como se não bastasse nunca ter me contado do violão, só hoje percebi que ele nunca disse que me ama. Eu sou uma idiota mesmo. Ele não deve... gostar... de mim.
Alguns soluços e lágrimas cortaram as palavras.
O que Helena não entendeu foi o porquê de, ao olhar para Ana, enxergar uma expressão de compreensão. Como se tudo fizesse sentido.
Talvez porque, naquele momento, fazia mesmo.
Mas era tão claro – ela pensava -, pois o que mais poderia fazer Matt se descontrolar daquela maneira?
Quando olhou novamente para Helena, enxergou só tristeza em seus lábios contraídos.
- Helena, você não interpretou o que aconteceu da maneira certa. Matt te ama, e o violão é pra ele mais do que você consegue imaginar.
- Teste-me – foi a única resposta sarcástica o suficiente que conseguiu soltar.
Ana suspirou.
- Você é uma pessoa comunicativa. Carismática. E Matt não chega nem perto disso. Você inclusive melhorou o jeito dele de ser, mas antes de você ele conseguia ser ainda pior. Sempre sufocando opiniões, expectativas e sentimentos. Você tem a capacidade de desabafar e superar contando com a ajuda de outras pessoas, e ele não.
Helena só ouvia, tentando controlar as lágrimas.
- Eu entendo o jeito dele, não sou tão dura. É só que...
- Na verdade – Ana interrompeu-a, como se mal tivesse ouvido – Matt nem sempre foi assim. Ele sorria mais, antes da morte de nossa mãe.
Onde aquilo iria chegar? Era o pensamento da garota que finalmente conseguira controlar a decepção pulsante.
- O violão pertencia a ela. Sabe, antes de dormirmos ela tocava para a gente, e Matt sempre era o mais empolgado. A voz dela era tão doce...
Ana mirava os olhos em algo que com certeza não estava na rua praticamente deserta. Algo que estava em outro espaço, outro tempo, uma realidade arrancada sem piedade por uma lógica de fatalidades que ninguém é capaz de entender.
De repente, sacudiu a cabeça, como lembrando-se de onde estava.
- Matt ficou distante. Nas primeiras semanas após... o acidente – a palavra saiu com dificuldade – ele ficava no quarto dela, cantando a música sozinho no escuro. Passou a comer menos, a ser mais introvertido. Após algum tempo sua atitude melhorou, mas ele nunca mais foi aquela criança alegre e espontânea. De qualquer forma, eu já me acostumei, mas deve ser muito difícil essa escolha de guardar sentimentos dentro de si.
Helena se ajeitou, com medo de escolher mau as próximas palavras. Sabia que Ana estava lá para ajudá-la, mas depois de palavras tão sérias não sabia se era certo – já que era no mínimo egoísta – continuar falando sobre o que pensava.
Para seu alívio, Ana adivinhou como ela se sentia.
- Isso não te responde nada, certo?
Respirou fundo.
- Eu sei que vocês sofreram muito, e tudo bem que Matt cuide do violão com tanto carinho porque pertenceu à mãe. Mas sinto que isso não explica em nada o grito que eu tive de ouvir.
Ana sorriu.
- Eu sempre falo tanto que fujo do assunto principal, você tem razão. É que, na verdade, acho que o grito que você ouviu não teve nada a ver com minha mãe.
Roeu o canto de uma das unhas.
- Ninguém é capaz de carregar sonhos e segredos consigo o tempo todo. Todos, todos têm uma válvula de escape, mesmo que não saibam. E a voz de Matt é aquele violão.
Helena ajeitava-se em seu lugar inquieta – adorava ouvir histórias, mas queria logo uma conclusão. E depois entrar em casa, tomar um banho e enfiar a cabeça embaixo de um travesseiro.
Uma ansiosa de nascença, não tinha jeito.
- Quando Matt está triste, feliz ou pensativo, não importa. Qualquer coisa profunda demais para seus parâmetros para nas cordas do violão. Matt nunca executa nenhuma música em público, ele faz com que ignorem a existência de seu lado musical por isso. Essa é a parte mais intrínseca dele, aquela que ele reserva a si mesmo. Seu coração está em seus dedos nesses momentos. Só consigo ouvi-lo atrás da porta, quando não enxerga minha sombra. Tocar para alguém, em seu ponto de vista, é como exibir seu lado mais secreto, abrir literalmente sua mente. E Matt tem horror à exposição.
Helena só queria ouvir mais uma coisa.
- Então ele nunca disse que me amou por que ele não consegue? Eu não sei bem. É que...
- Não duvido que ele nunca diga, para ser sincera.














1 leituras de texto :):
- intrínseca - adorei esta palavra! :D
Marina, já disse isso inúmeras vezes, mas não posso evitar: você escreve MUUUUUUITO !
E nenhuma Leide, Luide, Luiza, Liede pode dizer que não!
Muito envolvente suas histórias!
E não era p/ eu estar aqui, lendo seu ROMANCE, porque eu não quero ler um ROMANCE, porque eu estou vivendo um ROMANCE, e não é legal viver um ROMANCE quando não tem o ROMANCE.
Mas fuck it, estou aqui vivendo o seu ROMANCE que é bem mais legal que o meu :D
:)
:)
bianca
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