
Parecia uma tarde de outono como outra qualquer.
Helena bateu de leve na porta de madeira escura, aguardando do lado de fora com um sorriso no rosto.
Ana abriu a porta com olhos distraídos quando de repente se deu conta da pequena e calorosa presença.
- Ah, é você! - exclamou alegre.
- Bom dia! – Cantarolou com sua voz doce, e após arregalou os grandes olhos castanhos. - Vim falar com Matt. Ele está?Enquanto subia as escadas com seus passos leves, percorrendo o caminho já conhecido, era acompanhada visualmente por Ana.
Gostava da namorada do irmão mais novo, dócil e delicada. Tinha algo de especial nela, uma bondade palpável. Só lutava para entender como personalidades de certa forma tão opostas poderiam se complementar sem grandes atritos.
Deu de ombros. Afinal, precisava continuar o trabalho de Biologia, e não queria perder-se em devaneios.
Matt franzia a testa. Não adiantava, era complicado demais. Por mais que se esforçasse, parecia que a última sequência da música que dedilhava no violão simplesmente não fluía.
Não era tão complicado. Ou ao menos não parecia. Talvez fosse por culpa da quarta corda – a que sempre lhe causava dor de cabeça.
De repente ouviu um barulho, e deparou-se com Helena, radiante, dentro de seu quarto.
Como a garota podia permanecer sempre tão adorável?!
Naquele momento usava um vestido azul leve, e o cabelo castanho-escuro preso numa trança. Uma mecha caía delicadamente do lado direito de seu rosto.
Matt pensava exatamente nisso quando notou a expressão surpresa de Helena.
Sua única reação foi empalidecer, ao dar-se conta do motivo.
A garota não podia acreditar.
Já estava com Matt há alguns meses, mas sentia como se o tempo não determinasse a profundidade da relação que tinham. Conheciam os pequenos detalhes.
Ela sabia que ele era introvertido, assim como ele sabia que ela adorava música.
Já visitara-o tantas, tantas vezes. Já haviam passado tantos momentos juntos, já haviam gasto tantas tardes conversando lado a lado. Como ele escondera sua afinidade com o violão, sabendo que ela tanto admirava o instrumento?
A pele já clara de Matt agora estava praticamente translúcida, e seus olhos verdes estavam piscando rápido por trás dos óculos.
A expressão perfeita de culpa.
Helena tomou fôlego.
- Matt – começou – desde quando você toca violão?
O garoto tremia de leve.
- Ahn, eu sempre toquei.
- E não me contou?
- Ah, eu... esqueci.
O silêncio da descoberta pairava entre os dois. A última afirmação era uma mentira mal contada, e ambos sabiam.
Como a única reação do garoto foi guardar o violão, a garota seguiu seu impulso.
- Não sei se você lembra, mas eu adoro música. Amo. Você devia ter me contado que era músico!
Imediatamente recuperou a cor – o vermelho espalhava-se pelas bochechas, puro constrangimento.
Tímido como era, só podia agir como refém da namorada transtornada, que não pararia de falar tão cedo.
- Olha, na verdade eu posso até relevar. - E deu um sorriso atrevido, interrompendo a sequência de reclamações. Tire alguma música pra mim!
Matt ajeitou o óculos e coçou a cabeça.
- Helena, eu... eu... hm...
Veio a raiva das palavras entrecortadas.
- Vamos, estou esperando!
Suspirou. Segurou-a pelo braço, e colocou-a sentada na cama.
- Estou esperando – reclamou Helena com certo desânimo.
O garoto ajeitou os óculos pela enésima vez. Limpou a garganta com um som estranho. Espirrou, e só depois decidiu falar.
- Eu, hm, não sei tocar direito.
Ela não podia acreditar que essa era a resposta que teria.
- Além de esconder seu violão, vai se recusar a tocar para mim? Eu sei que você é tímido, mas isso é um desaforo! Eu te amo. Amo a música. Mesmo que desafinando todas as notas eu não ligo. E duvido que você seja ruim mesmo: você é sempre bom no que faz.
Helena estava magoada, simples assim. Sentia-se de certo modo traída pelo segredo escondido. Como se não fosse digna dele.
- Matt, isso significa muito pra mim. Você tem que confiar em mim.
O garoto de repente teve o rosto endurecido. A cor de sua pele voltava ao normal, e ele parecia mais seguro de suas próprias palavras.
- Não vou fazer isso. Sinto muito.
Ela não conseguia entender.
- Você me ama de verdade?
- ISSO NÃO É UMA DESCULPA! - logo ele, sempre tão controlado, gritou. - Você sabe muito bem que a extrovertida aqui é você. Você não pode querer arrancar de mim tudo que quiser por meio de sentimentos! É pessoal demais, você não pode tentar entender?
Helena, sempre tão delicada, não podia engolir as palavras simplesmente. Suas pequenas mãos estavam fechadas, e os nós dos dedos ressaltados. Tremendo de leve e com uma decepção que ela não imaginava encontrar naquela tarde de brisa agradável, andou em direção à porta.
Antes de partir correndo, olhou para trás. Matt pôde enxergar as lágrimas grossas pontilhando a face contorcida.
- Você nunca disse que me amava. Nunca. E só agora me dei conta disso.
Matt ficou estático enquanto a garota sumia, levando uma parte de seu coração porta afora.














1 leituras de texto :):
Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah !
péssima hora para um romance! :(
Como helena, também estou apaixonada por alguém extremamente tímido - não é aquele cara lá que eu te falei (achava que era, mas me dei conta de que era outro) -, que esconde inúmeros talentos. Na verdade suas capacidades estão aí para qualquer um que queira enxergar, mas quem repararia em alguém tão invisível?
Resposta: _o/
Não consigo lembrar de sequer um momento de minha vida em que eu não estava apaixonada por um cara, o que me torna totalmente dependente, mas eu não ligo.
O pior é que eu gosto disso. Gosto de estar apaixonada.
Gosto não, AMO!
Mas eu sou boba demais. E eu também não ligo para isso. Não posso evitar de segui-lo com os olhos sempre que tenho a oportunidade, não posso evitar de analisar cada movimento que ele executa, de cada toque - por mais fútil que seja -, que recebo, de cada olhar que trocamos, de cada tom de cada palavra que pronuncia...
# no one never said that life is fair #
bianca TO
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