terça-feira, 26 de abril de 2011

Quinze


E hoje completo meus quinze anos.

A ideia em si parece meio surreal.

Eu nunca tive planos, mas confesso que mesmo sem querer (e sem lembrar desde quando) idealizei esse momento.

Eu estaria no auge da minha forma física. Magra e linda, não sei como.

Teria melhores amigos maravilhosos. Um namorado perfeito. Problemas absurdamente estereotipados.

Nunca me preocupei com detalhes. Só com o fato de que esse seria o período mais tranquilo, perfeito e lindo da minha adolescência.

Obviamente, como todas as expectativas criadas sem basear-se em fatos mas sim em sonhos, descubro que a realidade é mais alcançável. Mais simples.

E, definitivamente, bem menos cinematográfica.

É inevitável olhar para trás.

Querendo ou não, esse é um marco. Uma espécie de passagem ou talvez só mais uma convenção tipicamente social, não sei definir. Mas cá estou eu, em cima de todo meu egocentrismo concentrando-me no meu reflexo.

Ao olhar-me no espelho, vejo a mesma de ontem. Provavelmente, a mesma de amanhã. Nada de transformações mágicas ou reviravoltas surpreendentes.

Mas, definitivamente, mudei muito ao longo de minha (singela? Pequena?) jornada.

Não posso evitar a sobrancelha arqueada ao mirar-me no pedaço de vidro frio.

Sei que ainda posso viver muito, e que sou imatura. Mas confesso sentir certo orgulho ao olhar ao mundo com meus olhos atuais.

Parece que minha visão foi aprimorada, deixou de ser tão... Superficial.

Antes me focava muito nos detalhes. Nos meus problemas, na minha única e exclusiva realidade. Conforme tempos e momentos passaram, adquiri uma visão mais ampla.

Como se antes eu fosse limitada ao meu próprio mundo, e agora, aos poucos, possa abranger o que há ao meu redor.

Não passei por problemas gravíssimos. Não sofri por fome, não fiquei inconsciente de dor e não tive uma perda dilacerante. Mas se eu simplesmente sorrir e disser que tudo foi belo e esperado, bem, será só mais uma mentira.

Não divido mais pessoas como boas ou más, como amigas ou inimigas. Agora todos me parecem assustadoramente humanos, em sua essência.

Confiava muito em pessoas próximas. Vivia como se meu presente não pudesse alterar meu futuro, como se o hoje pudesse ser tão belo e calmo como o amanhã.

Procurando em meus cadernos velhos resquícios de passagens antigas, achei uma frase rabiscada totalmente inesperada: “Estou tão feliz que estou com medo de que tudo possa desabar”.

Desabar pode ser um exagero. Mas, com toda certeza, minha realidade frágil foi quebrada.

Me decepcionei nos mais diferentes níveis. Ouvi mentiras deslavadas e verdades inesperadas.

Descobri falsos amigos ou pessoas que simplesmente não se importavam o suficiente. Vi que nem sempre os problemas vêm sozinhos, isolados. Falei demais, pensei errado, criei fantasias tão grandes que, quando evaporaram, só deixaram o gosto de quebra em minha boca.

Passei a enxergar muito melhor entrelinhas – a começar do fato de reconhecer sua existência em suspiros, olhadas rápidas e falsos sorrisos.

Descobri que meus pais são tão humanos quanto eu. Que também erram, também tem defeitos. Que às vezes magoam sem ao menos perceber.

E, olhando mais atentamente, arranco a verdade de suas essências – eles são os melhores que sempre podem.

Quantas vezes chorei, gritei ou achei que não me reergueria de quedas inesperadas? Muitas. Incontáveis. Apareceram muitos problemas insolucionáveis que se resolveram sozinhos.

Aprendi que é tudo estrita e perigosamente sem volta. Que alguns significados valem para apenas determinados segundos, que alguns sorrisos podem ficar apenas em lembranças.

Errei. Meu Deus, o quanto fui cega, teimosa, orgulhosa, ignorante e apática. Feri sem necessidade, senti prazer quando vi a lágrima da derrota. Da minha vitória.

Consegui ver meu pior lado, e de tudo que me cerca.

Mas como me diverti.

Fiz inúmeros amigos. Viagens longas, telefonemas como surpresa, presentes lindos por si próprios.

Dividi. Desabafei. Chorei de rir até meu estômago doer ou acabar o fôlego.

Corri simplesmente pra sentir o vento contra minha pele. Fiz caretas e dancei mesmo quando não era totalmente adequado. Compartilhei e ajudei.

Senti a sensação boa de fazer algo ligeiramente errado só para rir sozinha mais tarde. Colaborei com quem precisava algumas vezes, e me senti bem por isso.

Comi amoras direto do pé, fui atriz em peças de teatro toscas, me sujei de lama em trilhas traiçoeiras e cai no meio de algumas piruetas para rir desenfreadamente.

Amei platonicamente, me apaixonei perdidamente por dois meses eternos.

Joguei conversa fora. Guardei informações. Cheguei em casa tarde, não fui dormir cedo o suficiente.

Me dei mal, sabendo que aconteceria, pelo prazer de ter quem eu amava ao meu lado.

Andei olhando fotos antigas para chorar de saudade.

Tive raiva de algo que me fez bem pelo simples fato de ter acabado.

Aprendi. Observei, fiz anotações mentais.

Escrevi. Tanto, mas tanto, que em qualquer canto que tenha papel provavelmente terá duas palavras sublinhadas. No mínimo.

Descobri que generalizações funcionam melhor que o esperado. Magoam mais que o provável.

Aprendi a sentir o perfume das flores. O calor de abraços passageiros, o brilho fugaz dos olhos. Aprendi a memorizar e valorizar algumas coisas nas quais não me ligava.

Aprendi que o que hoje é infinito amanhã pode ser pó. Que não deve-se sair de um lugar batendo portas para não ser necessário entrar pela janela.

Ainda conto estrelas. Tento manter os pés no chão, mas sou uma amante de céus.

Me perco em sua magnitude, em seus tons e seus mistérios.

Quando olho para cima e vejo algo tão grande flutuando sobre minha cabeça, tenho a certeza do quanto sou minúscula.

Sou uma inconstância. Uma vírgula. Um fá sustenido.

Vivi, e chorei muito. Me arrependo, e às vezes quero voltar no tempo.

Mesmo nessa minha briga interna alternando estados de espírito, ainda sim agradeço por ter chegado até aqui. Por tudo, tudo que ganhei, todas as oportunidades que, infelizmente, nem todos podem ter.

Termino esse texto saboreando minhas lágrimas estupidamente emotivas.

O céu está escuro, não enxergo estrelas. Trago no peito um coração levemente despedaçado.

Mas como sempre, haverei de colar os cacos e seguir em frente.

Porque, como enuncia a lei da vida, no dia seguinte há sempre a probabilidade de se saborear uma lua cheia, brilhando no céu para quem quiser ver. Não se trata apenas de calendários ou nuvens espessas. A chance está lá, ao alcance de nossos olhos.

Futuro incerto. Passado intenso.

E o presente, sempre um presente inesperado, realista e belo – da maneira mais ampla, complexa e mágica possível.


Tanto a dizer. Tantas maneiras de falar. Não gostei das palavras que escrevi, mas por hoje bastam.

Afinal, amanhã é só mais um dia.

3 leituras de texto :):

CARACA, TO FICANDO VELHO disse...

BELO. SIMPLES, COMPLEXO, HONESTO E SUTIL. SOU FÃ E VC SABE DISSO. PARABÉNS.

Vanessa disse...

Ahhh Marih *-----------*
Parabéns fofa, tudo de melhooor na sua vida.
Gosto muito de você, minha top blogueira sz, rs
Adorei sua retrospectiva sobre sua vida, dai você consegue perceber, o quanto você cresceu, aprendeu, sonhou e ate mesmo se decepcionou. Mas no entanto você viveu, é este e a ensencia da vida, uma vida que não se repetirá jamais e dela temos que aproveitar o máximo.

Anônimo disse...

Aaaaaaaaaaaaah! s2
15! 15! 15! 15! 15! 15! 15! 15!

E eu que achava que possuía infinitos sentimentos escondidos, talvez até espremidos, ensocados aqui no meu inside!
Garota, quando você começa a escrever não há quem pare! Não tem medo de expressar o que sente, mas mesmo assim, sempre insiste que falta alguma coisa para falar sobre.
Que se dane se os outros irão ler ou não, gostar ou não, comentar ou não, você escreve para si própria, para se sentir bem, para desabafar! E é isso o que importa, afinal quem consegue viver para o que os outros pensarão? De que isso vale? Temos de fazer o que achamos que devemos fazer, oras! E digo mais: ninguém pode nos dizer se estamos certas ou erradas. Na verdade podem sim, mas quem disse que precisamos saber se estamos certas ou erradas? Como elas podem saber se estamos certas ou erradas? NÓS dizemos se estamos certas ou erradas!
Enfim, falei demais e falei nada com nada, mas não me importo. Não sei se estou certa ou errada, mas quem disse que isso é relevante?
iashAiushA
Mariiiiiiiiiiiiiiiih! Até o próximo post!
Beeijos, Bianca T.O.
:D

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