segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011


A garota só era capaz de ouvir e baixar os olhos.

Dentro de si ela tinha mais respostas prontas para cada frase levantada do que seria considerado educado, mas não tinha importância.

A garota sabia muito bem que não teria coragem de expor sequer uma palavra sobre o que realmente pensava.

Isso mesmo, ela tinha total consciência de que era uma covarde.

- Você está tão desanimada.

A garota suspirou.

- Nunca mais vi aquele brilho nos seus olhos. Você não se entusiasma com mais nada.

O bom do cenário é que havia uma partida de baralho acontecendo. Então ela não precisava ser tão inquirida, nem responder logo. A desculpa era o jogo de baralho.

- E você tem uma vida tão boa, menina. Não aguento esse seu olhar vazio.

- Só estou cansada.

Cansada de quê? De tudo. Da vida.

Enquanto alinhava sua quase-canastra, a garota respondia mentalmente tudo que lhe vinha a mente.

A felicidade não existe. Essa era uma certeza, assim de como o ar que ela respirava tinha oxigênio.

A felicidade é uma ilusão, a mais maldosa que existe. Ela serve para que você sempre viva com o intuito de um dia alcançá-la. Mas ela é inalcançável porque... Não existe. Aí está o ciclo.

- Você não sorri mais?

A garota abriu o sorriso mais forçado que conseguiu. Pequeno e completamente simulado.

- Você não quer me dizer o que houve, não é?

A garota olhou-a dentro dos olhos. Sentiu um aperto no peito.

- Nada, nada aconteceu.

A garota acharia bom se algum dia alguém descobrisse que se ela não sorria não tinha de haver um motivo. Se ela não se entusiasmava, se ela não depositava expectativas ou gargalhava à toa essa era só a maneira mais simples de se proteger.

O único amor que existe é aquele que se tem por si próprio. E o da garota não era nada de mais.

Ela não fazia como as outras pessoas, que fechavam os olhos para seus piores defeitos e cantarolavam as poucas qualidades que tinham. Ela sabia de todos os seus defeitos. Sabia ainda mais que, caso tentasse aumentar suas qualidades, isso só faria com que gradativamente ela fechasse os olhos para seus erros. E que, de uma forma ou outra, um dia todas as suas atitudes inadequadas a acordariam de seu sono mais profundo para pedir as consequências.

Porque as pessoas são assim. Imaginam-se muito inteligentes, mesmo quando insistem em atitudes iguais por quanto tempo acharem que estão certas.

Se enchem de elogios, se perdoam por tudo e não se cobram por nada.

Se entusiasmam, têm fé e depositam expectativas.

Com que objetivo? O de sempre: quebrar a cara. Despedaçar o próprio coração.

Porque nada sai como o planejado. Nunca. Sempre há uma peça fora do lugar, aquela peça da qual os menos resolvidos reclamarão e lamentarão pela vida toda.

- Minha cara, onde foi parar sua alegria de viver?

A garota suspirou.

- É só um dia, não se preocupe.

Alegria. Que palavra mais irônica. A alegria não tem propósito diferente de todo o resto.

Ela serve para te enganar por alguns momentos. Naqueles momentos em que você pensa que sabe de tudo, que as coisas são perfeitas, que nada vai dar errado, que a vida é linda.

Até, como sempre, a alegria ser abalada. Até que as pessoas redescubram pela enésima vez que a felicidade contínua é um mito. Entre alguns segundos de euforia ficam as horas de melancolia, dor, empatia e decepção.

- Olha, eu acho que essa sua cara é falta dos amigos. Aposto que quando sua rotina se estabelecer novamente você volta ao normal.

Amigos. A amizade é outro conceito mito.

O amor por um outro é mito. O único amor real é aquele pelo próprio ego. Esse sim, real e inabalável.

As pessoas dizem que amam os familiares. Mentira. Podem até se afeiçoar pelos mais próximos, mas no fundo amaldiçoam esses laços. Porque sempre que houver um problema, você vai estar envolvido. Por mais que você colabore e tente fazer sua parte, sempre haverá aquele pedaço de culpa pela interferência insuficiente na vida do familiar.

Ou interferência demais. Então você, que há dez segundos atrás tinha uma ligação tão especial com esse alguém, agora é descartável. Não sabe de nada, não entende nada, não serve pra nada.

Os amigos são parecidos. Você se dedica num relacionamento, você guarda cada momento agradável. Ganha até uns restos da felicidade esplendorosa e mítica citada por aí. Você acredita que aquilo vai durar para sempre, que seus netos vão brincar com os netos de algum amigo enquanto vocês conversam na cozinha e fazem biscoitos.

Então num belo dia, e sem um motivo tão grave, tudo acaba. Os sonhos, as risadas, as confidências. Tudo dispensado como se nunca tivesse existido. Pode ser algo até gradativo, ou repentino, não importa. Acaba. E no final o que era a amizade mais forte do mundo é só mais um laço rasgado e esquecido.

Amor verdadeiro existe sim. Nos filmes e nos livros. Amor de verdade é ficção para sempre.

Almas gêmeas, amores predestinados, tudo papo furado. As pessoas só experimentam o amor sozinhas.

Elas vão alimentando seus sentimentos. Sonham acordadas, suspiram, imaginam e criam todos os planos possíveis. Um amor bonito e que valha a pena.

Mas quando isso (e se) sai da imaginação, nunca tem metade do glamour que supostamente tinha. As pessoas se juntam por interesse, para não ficarem sozinhas, por tédio. Todas as promessas, todas as declarações são só uma tentativa - funcional até certo tempo - para estreitar laços. Os laços que se rompidos vão destruir você por dentro de uma vez só, e que se mantidos, destroem mais devagar: aos poucos. Cada briga, chantagem e desilusão rasgam um pouco mais você por dentro.

A garota adorava menosprezar em sua mente aqueles que falavam que a dor ensinava, e que mesmo que as coisas boas acabassem ficariam as lembranças da felicidade.

Lembranças. A arma embutida em todos para ajudar na busca da alegria impossível.

As lembranças rasgam você por dentro. Fazem chorar. Porque a cada segundo elas só servem para lembrar você de que um dia as coisas estiveram muito melhores, e agora por algum motivo (que provavelmente não é sua culpa, já que você tem muito mais qualidades que defeitos) nada é daquela maneira.

Sonhe bem alto. Dedique-se ao máximo. Assim quando você sofrer uma queda, você pode cair por um bom tempo e ainda lamber bastante chão para entender como as coisas funcionam de verdade.

- Aproveite a vida, querida. Você é tão importante para todos, tão bonita. E fica aí com esse olhar perdido.

A garota naquela hora teve muita, muita vontade de explicar que a vida não era nada interessante. Viver doía.

A garota sabia que era feia. Odiava saber de maneira tão clara, mas sabia. Era um fato, simples assim.

Outro fato era que a garota era uma fraca. Só usava suas forças para engolir todo seu fracasso, toda sua tristeza, que não gostava de empurrar para cima de ninguém. E mesmo assim não fazia direito, porque facilmente se detectava na sua pele pálida o sofrimento mal guardado.

Ela sabia que havia pessoas em situações absurdamente piores que a dela. Isso até lhe fazia se sentir culpada quando ela pensava em morrer.

Morte. A morte é tão simples, tão fácil.

A morte é o fim.

Sem mais delongas, sem palavras desnecessárias e decepções repetidas.

A morte é largar tudo, sem nenhum compromisso.

A garota tinha vontade de morrer. Estava dentro dela, por mais que ela não quisesse admitir. Ver as coisas com uma clareza tão cinza causava esse efeito.

Ela era capaz de gastar horas imaginando se faria alguma diferença, e a conclusão era sempre a mesma.

É claro que não.

Ela nunca fora importante o suficiente para alguém. Talvez no início alguns sentissem saudades, mas a garota percebia muito bem que era questão de adaptação. Alguns meses e ela seria só mais uma memória arranhada, machucando mais alguém por alguns segundos para depois ser trancada novamente.

Ela tinha toda a capacidade covarde que precisava para fazer algo assim.

Mas ela sabia que era burrice. Que não havia uma segunda chance, então era melhor se contentar com aquela.

Mas então - você se pergunta - se ela é tão pessimista e fraca, porque não acaba com tudo de uma vez?

Ah, a garota adoraria que alguém surgisse de Lugar Nenhum e fizesse essa pergunta. Porque nesse momento a garota teria uma resposta que lhe traria um certo brilho aos olhos.

A garota se agarrava na única coisa que lhe trazia paz de espírito. Na única coisa que podia aliviar seus sentimentos ruins e seus pensamentos trágicos. O objeto de seu verdadeiro amor, puro e sincero.

Seu violão.

A garota contava com ele para todos os momentos. Ouvia seu som extasiada, hipnotizada.

Não era exímia tocadora. Bastante medíocre, com toda a sinceridade.

Mas mesmo assim, ela adorava tocar. Passas os dedos pelas cordas, ouvir cada nota soar e percorrer um espaço indefinido, repercutir de maneira tão perfeita para depois sumir no ar, dando espaço a mais sons.

O violão sempre estava no lugar que ela deixara. E sempre fazia o som que a garota queria. O violão só mudava em seu comando, quando ela ajustava suas cordas elásticas para fazer a música ganhar novo formato.

O mais importante era que ela tocava para si mesma. Aliás, uma lição interessante que ela sabia de cor: quando queremos paz, descanso, essa emoção tem que estar num lugar onde nós - sozinhos - possamos alcançá-la.

A garota não gostava de tocar para os outros. Porque mesmo quando ela tocava com a alma, sabia que dificilmente acharia um ouvinte que tivesse mais do que algumas críticas fúteis para dizer.

Ela não queria aprovação de ninguém quando dedilhava erroneamente. Só queria a confirmação, vinda de seu espírito, de que o som estava bom.

Porque, assim, quando ela tocasse com sua alma, uma simples brisa acariciaria seu rosto e mentiria que tudo poderia ficar bem.

A garota de repente encerrou o jogo. Bateu conseguindo fechar uma canastra limpa.

Já estava na hora de ir embora. A garota se despediu de sua companhia e andou com passos pesados até a rua.

Sentia-se mal. Desolada, perdida.

Mas mesmo assim respirava fundo. Não transpareceria desesperadamente sua confusão interior.

Fechou um pouco seu casaco e esfregou as mãos, porque já sabia onde encontrar a solução.

Não seria em falsas esperanças, lembranças quentes ou pensamentos positivos.

Do fundo de sua alma, a garota entendia que tudo se resolveria da maneira certa:

num Fá Sustenido.

1 leituras de texto :):

Erica Ferro disse...

Marih, me identifiquei com essa mocinha realista, que de ideias aparentemente radicalmente pessimistas. Ela tem razão em muitas coisas. Amor eterno, sincero e despretensioso só existe no mundo da arte. Por mais que amemos uma pessoa, nos adaptamos com a ausência que a morte dela causou. Nós nos acostumamos, esse é o problema. Nos acostumamos tanto com o que é bom como com o que é ruim.

Ah, e vou pedir a essa menina que me apresente um Fá Sustenido.

Adorei o seu texto. Mesmo.
Um abraço!

***
Também admiro a sua maneira de escrever e é sempre uma alegria de lê-la.

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